Em um único dia, a Nasdaq perdeu cerca de US$ 2,5 trilhões em valor de mercado, a maior queda da história do índice nessa métrica. Horas depois, as bolsas da Ásia desabaram: a da Coreia do Sul chegou a cair 8,8% e teve as negociações suspensas, e a do Japão entrou em bear market. O gatilho veio de onde pouca gente esperava: o medo de que os democratas, fortalecidos nas eleições americanas, freiem a construção de data centers de inteligência artificial.
Segundo a Exame, a estimativa da perda da Nasdaq é da Dow Jones Market Data. O índice caiu 5,5% na quinta-feira, 5 de novembro, o S&P 500 recuou 4,4% e o Dow Jones perdeu 1.833 pontos, ou 3,4%. Foi o pior pregão para os três índices desde abril de 2025.
Quanto caíram as bolsas da Ásia
Na sexta-feira, 6 de novembro, o efeito se espalhou pela Ásia. Os números, segundo a Exame e o Times Brasil:
- Kospi, Coreia do Sul: chegou a cair 8,8%, acionou o circuit breaker, com 20 minutos de suspensão, e fechou em queda de 6,02%, acumulando perda de 12% na semana.
- Nikkei 225, Japão: caiu 5,96%, entrou em bear market e teve o pior dia desde abril de 2025.
- Taiex, Taiwan: recuou 4,51%, a maior queda diária desde julho.
- Hang Seng, Hong Kong: caiu 1,27%.
- Xangai: recuou 1,10%, e Shenzhen, 2,25%.
- S&P/ASX 200, Austrália: caiu 0,49%.
O índice MSCI Ásia-Pacífico, que reúne as principais ações da região, caiu 4%. O único grande mercado asiático no azul foi o da Índia, segundo a Exame.
O que é circuit breaker e bear market
Os dois termos ajudam a entender o tamanho do tombo. O circuit breaker é um mecanismo que interrompe as negociações quando a bolsa cai além de um limite em pouco tempo. A pausa serve para conter o pânico e dar tempo aos investidores para avaliar a situação. No Brasil, a B3 tem regra semelhante.
Já o bear market, ou mercado de urso, é o termo usado quando um índice acumula queda de 20% ou mais a partir do pico recente. Ele indica que o mercado deixou de viver uma simples correção e entrou numa fase de pessimismo mais longa.

Por que as bolsas da Ásia despencaram
A origem está nos Estados Unidos. Com a vitória democrata nas eleições de meio de mandato, que fez Trump perder o Congresso, governadores eleitos prometeram restringir a construção de data centers, os grandes centros de computação que sustentam a inteligência artificial. O mercado passou a precificar regras mais duras para esses projetos.
No Texas, segundo a Exame, o governador republicano Greg Abbott já havia anunciado uma moratória, e a democrata eleita Gina Hinojosa defende manter suspensas as novas aprovações até que o Legislativo estadual aprove regras. Se a expansão dos data centers desacelerar, as empresas que fabricam chips e equipamentos para IA podem vender menos.
É aí que entra a Ásia. Coreia do Sul, Japão e Taiwan concentram fabricantes de chips e componentes essenciais para a inteligência artificial. Quando o mercado teme menos investimento em IA nos Estados Unidos, essas empresas são as primeiras a sentir. “As projeções de lucro para o próximo ano não são mais confiáveis”, afirmou Mike O’Rourke, estrategista-chefe da JonesTrading, segundo a Exame.
Por que as bolsas da Ásia dependem tanto da IA
Nos últimos anos, as bolsas da Ásia foram puxadas pela corrida da inteligência artificial. A Coreia do Sul abriga as maiores fabricantes de memória do mundo, Taiwan concentra a produção dos chips mais avançados e o Japão tem empresas e investidores ligados a toda a cadeia, de equipamentos a fundos de tecnologia.
Essa concentração funcionou como motor na alta e virou risco na queda. Quando a demanda por chips e memórias parece garantida, as ações sobem rápido. Quando surge a dúvida sobre o ritmo de investimento das big techs americanas, as bolsas da Ásia caem com a mesma velocidade. O tema já aparecia em discussões recentes sobre o consumo de memória pela IA, como na fala de Sam Altman sobre a memória RAM, que mostra o quanto o setor depende desses componentes.
As empresas que mais perderam
As gigantes de tecnologia lideraram as perdas. Em Wall Street, as chamadas Sete Magníficas perderam mais de US$ 1 trilhão em valor de mercado. A Nvidia, maior fabricante de chips para IA, caiu mais de 9% e perdeu mais de US$ 440 bilhões. Tesla e SpaceX também recuaram mais de 9% cada, segundo a Exame.
Na Ásia, a SK Hynix, fabricante sul-coreana de memórias, caiu 10,4%, segundo o Times Brasil. A Samsung Electronics recuou mais de 6%, a TSMC, de Taiwan, perdeu 4,7%, e o SoftBank, do Japão, despencou quase 11%. A fortuna de Masayoshi Son, fundador do SoftBank, encolheu US$ 3,9 bilhões.
O nervosismo também apareceu no VIX, conhecido como índice do medo, que subiu 11,57 pontos e atingiu o maior nível desde março. O setor de tecnologia do S&P 500 caiu 7,3%, o pior dia desde março de 2020.
O que a queda das bolsas da Ásia muda para o Brasil
Quedas fortes no exterior costumam chegar ao Brasil pelo humor dos investidores. Em dias de aversão a risco, o capital estrangeiro tende a sair de mercados emergentes, o que pode pressionar o Ibovespa e o dólar. O efeito exato sobre a bolsa brasileira e o câmbio desta sexta-feira ainda precisa ser acompanhado ao longo do pregão.
O Brasil tem menos empresas ligadas a chips e IA do que a Ásia, o que reduz a exposição direta. Mas o episódio mostra como a eleição americana já mexe com o mercado global, como o Vector News mostrou ao analisar os impactos das midterms no Brasil. Para quem investe, o tombo das bolsas da Ásia é um lembrete: a lição é conhecer a própria exposição a ações de tecnologia e evitar decisões no calor do pânico.
O que esperar nos próximos dias
A dúvida agora é se o tombo é uma reação exagerada ou o começo de uma mudança mais longa. Analistas vão acompanhar as decisões dos novos governadores sobre data centers, os resultados das empresas de tecnologia e qualquer sinal de regras federais para a inteligência artificial nos Estados Unidos.
O caso também mostra como a narrativa move mercados. Em poucas horas, uma expectativa sobre regulação apagou trilhões de dólares em valor. Para empresas de qualquer porte, a lição vale além da bolsa: quem comunica bem a própria estratégia, em canais próprios como portais de notícias, atravessa momentos de incerteza com mais confiança do público. Nas bolsas da Ásia, os próximos pregões vão mostrar se o pior já passou.
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