Ela investiu o equivalente a dois salários num curso, sem garantia de emprego, e hoje dirige uma carreta elétrica com capacidade para 52 toneladas de celulose. Maiara Fernanda Almeida dos Santos, de 31 anos, mãe de quatro meninas e moradora de Igaraçu do Tietê (SP), trocou o balcão de uma farmácia pela cabine de um caminhão. Há cerca de seis meses ela é motorista da Bracell, uma das maiores produtoras de celulose do país.
A história ganhou as estradas do Centro-Oeste Paulista durante o Outubro Rosa. A empresa envelopou a carreta elétrica que Maiara conduz com mensagens sobre a prevenção e o diagnóstico precoce do câncer de mama, e a motorista virou o rosto da campanha. Mas o que mais chama atenção é o caminho que ela percorreu até chegar ali.
Quem é a motorista da carreta elétrica da Bracell
Maiara foi mãe aos 20 anos e não teve a chance de estudar como gostaria. Antes de ir para a estrada, trabalhou no atendimento de uma farmácia e depois como motorista de ônibus no transporte coletivo. A vontade de dirigir caminhão, porém, vinha da infância. Quando criança, ela gostava de acompanhar o trabalho de um tio caminhoneiro e já sonhava em seguir a mesma profissão.
Hoje a rotina dela é o trajeto entre a fábrica da Bracell em Lençóis Paulista e o terminal intermodal de Pederneiras, também no interior de São Paulo. É nesse percurso que a carreta elétrica leva a celulose produzida na unidade até o ponto de onde a carga segue viagem.

O risco de investir dois salários na qualificação
Maiara já tinha habilitação para veículos pesados, mas sabia que isso não bastava para conseguir uma vaga no transporte de cargas. No fim do ano passado, tomou uma decisão que muita família pensaria duas vezes antes de tomar: reorganizou o orçamento da casa e destinou o valor de dois salários à capacitação profissional.
“Eu arrisquei. Meu marido é barbeiro e sempre me apoiou. Fui mãe aos 20 anos e não tive a possibilidade de estudar, mas vi na profissão de motorista um caminho para proporcionar uma qualidade de vida melhor à minha família”, conta.
A aposta deu certo. O curso abriu a porta para a primeira oportunidade como motorista de caminhão, justamente na Bracell. Ela começou em veículos a diesel e, em menos de três meses, passou a dirigir a carreta elétrica, um modelo que reduz o impacto ambiental da logística da empresa.
Por que a carreta elétrica é notícia
Ver uma carreta elétrica pesada na estrada ainda é raro no Brasil. O transporte de cargas no país depende quase todo do diesel, e trocar caminhões a combustão por modelos elétricos exige investimento em veículos, em pontos de recarga e em treinamento de motoristas. Rotas curtas e repetitivas, como a ligação entre uma fábrica e um terminal, são as primeiras a receber esse tipo de tecnologia, porque permitem planejar a recarga com precisão.
No caso da Bracell, a carreta elétrica faz a ponte entre a produção em Lençóis Paulista e o terminal de Pederneiras, onde a carga entra em outro modal de transporte. Para quem dirige, a diferença começa no silêncio da cabine e passa pela forma de conduzir, já que o veículo elétrico responde de maneira diferente na aceleração e na frenagem.

Mulheres ao volante de um setor masculino
O transporte rodoviário de cargas ainda é uma das profissões mais masculinas do país. Por isso, cada motorista mulher que assume um caminhão pesado também carrega um recado para outras mulheres que pensam em mudar de carreira. Maiara concilia a rotina na estrada com a maternidade graças ao apoio da família, e diz que aprendeu com a própria mãe a acreditar que podia ir mais longe.
“Minha mãe sempre me incentivou, ela sempre acreditou em mim. E, se minhas meninas quiserem seguir esse caminho, vou incentivar também”, afirma.
A mudança de profissão também conversa com um movimento maior do mercado de trabalho. Os dados do Caged sobre empregos formais ajudam a entender como anda o emprego formal no país, e o debate sobre jornada, como no caso do fim da escala 6×1, coloca a qualidade de vida no centro da escolha profissional.
Outubro Rosa nas estradas
A carreta elétrica que Maiara dirige recebeu uma lona especial com a mensagem “atitude faz toda a diferença”, em referência ao Outubro Rosa. A ideia da Bracell foi aproveitar o trajeto diário do caminhão para levar a campanha de conscientização sobre o câncer de mama a quem cruza as estradas da região.
A prevenção continua importante depois de outubro. O Instituto Nacional de Câncer (INCA) reforça que o diagnóstico precoce aumenta muito as chances de tratamento, e que conhecer o próprio corpo e fazer os exames indicados pelo médico são atitudes que salvam vidas.
Para empresas, a iniciativa também mostra como uma história real pode dar força a uma campanha. Em vez de uma peça genérica, a mensagem ganhou o rosto de uma funcionária com uma trajetória que muita gente reconhece. É o tipo de ação que reforça o papel da marca na vida das pessoas, e que funciona melhor quando a empresa conta bem as próprias histórias. Esse é um dos motivos pelos quais cada vez mais companhias investem em portais de notícias próprios para divulgar o que acontece dentro de casa.
O que a história da carreta elétrica ensina
Maiara resume a experiência com gratidão. Para ela, ser motorista é mais do que uma troca de emprego. É a realização de um sonho de criança e a chance de oferecer uma vida melhor às quatro filhas.
“Eu sou muito grata e feliz pela oportunidade que estou tendo. A gente tem que acreditar na nossa capacidade e ir em busca de realizar”, diz.
Para quem pensa em seguir o mesmo caminho, a experiência dela traz pistas práticas. Antes de investir em um curso, vale pesquisar quais empresas da região contratam motoristas, que tipo de qualificação elas pedem e se há programas de formação para mulheres no transporte de cargas. Também ajuda conversar com quem já trabalha na área, como Maiara fez desde criança ao acompanhar o tio. E organizar as contas da casa antes de dar o passo, como ela fez, reduz o risco da aposta.
A trajetória dela reúne três lições que valem para qualquer carreira: investir na própria qualificação, mesmo quando o dinheiro é curto; contar com uma rede de apoio em casa; e aceitar o desafio de aprender uma tecnologia nova, como a carreta elétrica, em pouco tempo. De atendente de farmácia a motorista de uma carreta de 52 toneladas, Maiara mostra que a mudança de rota pode começar com uma decisão difícil e terminar com o volante nas mãos.
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