O Dia das Crianças 2026, celebrado nesta segunda-feira (12), deve movimentar R$ 9,27 bilhões no varejo brasileiro, segundo projeção da Confederação Nacional do Comércio (CNC). O número representa alta de apenas 1,8% sobre o ano passado, quando a data movimentou R$ 9,11 bilhões, e mantém o Dia das Crianças como a quarta data mais importante do calendário do comércio, atrás de Natal, Dia das Mães e Black Friday.
O crescimento tímido tem explicação: o presente ficou mais caro e o bolso das famílias está apertado. Para as marcas, o Dia das Crianças 2026 é um teste de como vender para um consumidor que quer presentear, mas está endividado e mais seletivo do que nunca.

Onde vai o dinheiro do Dia das Crianças 2026
Como sempre, o brinquedo lidera. O segmento de artigos de uso pessoal e doméstico, que concentra a venda de brinquedos, deve responder por 39% do total projetado, o equivalente a R$ 3,62 bilhões. Em seguida aparecem hiper e supermercados, com 28% das vendas (R$ 2,63 bilhões), e o setor de vestuário e acessórios, com R$ 1,35 bilhão, ou 15% do total.
A presença forte dos supermercados chama atenção e diz muito sobre o momento. Chocolates, guloseimas e pequenos presentes comprados junto com a compra do mês ganham espaço quando o orçamento está curto. É o presente possível, e não necessariamente o presente dos sonhos.
Presente mais caro: chocolate lidera a alta
A CNC calcula que a cesta de 11 grupos de produtos e serviços ligados à data ficou 6,7% mais cara em relação ao Dia das Crianças de 2025. É uma desaceleração frente aos 8,9% do ano anterior, mas ainda bem acima da inflação geral, que chegou a 4,58% em 12 meses, como mostramos ao analisar o IPCA de setembro.
O vilão do Dia das Crianças 2026 é o chocolate, com alta de 19,3%. Na sequência aparecem os videogames (+11,2%), os lanches (+8%) e os brinquedos (+7,1%). Quem optar por roupas encontra um cenário mais ameno, com variação na faixa de 4%. Na prática, isso significa que parte do crescimento de 1,8% nas vendas vem de preço mais alto, e não de mais presentes comprados.
O bolso das famílias segura as vendas
O pano de fundo é o crédito caro. Segundo a CNC, a taxa média de juros para o consumidor está em 61,7% ao ano, o maior patamar para meses de agosto desde 2016. O percentual de famílias endividadas chegou a 82%, o maior da série histórica iniciada em 2010, e 29,9% delas têm contas em atraso. A inadimplência da pessoa física bateu 8,01%, também recorde.
Para o economista-chefe da entidade, Fabio Bentes, o varejo vive um padrão que se repete há alguns anos: crescimento baixo, sustentado pelo emprego e pela renda, mas travado pelos juros altos. O impacto disso vai além do comércio, como vimos no caso da Chilli Beans e a dívida em tempos de crédito caro.
Há, porém, um sinal de mudança no horizonte. Na semana passada, as ações de varejistas como Magazine Luiza e Lojas Renner dispararam na bolsa com a expectativa de juros menores no próximo ano, movimento que explicamos na matéria sobre o Ibovespa recorde. O mercado já aposta numa virada, mas ela ainda não chegou ao bolso de quem vai às lojas neste Dia das Crianças 2026.
Como as marcas estão jogando o Dia das Crianças 2026
Com consumidor cauteloso, as marcas apostam em três frentes. A primeira é o licenciamento e as coleções especiais, que criam desejo e justificam preço. A C&A, por exemplo, lançou a cápsula infantil “Melhores Juntos”, em parceria com a Disney e com curadoria da influenciadora Julia Faria, segundo o Publicitários Criativos. No mesmo movimento, a Cinemark lançou uma linha de produtos com personagens do BT21.
A segunda frente é a experiência. Shoppings, cinemas e redes de alimentação transformam a data em programa de família, com ativações, eventos e brindes. Num momento em que o dinheiro é curto, oferecer um passeio memorável pode ser mais eficiente do que disputar preço na prateleira.
No digital, o Dia das Crianças 2026 também reforça o peso dos criadores de conteúdo. Curadorias assinadas por influenciadores, vídeos de “unboxing” e listas de presentes por faixa de preço ajudam pais indecisos a escolher rápido. Para marcas menores, que não têm verba para licenciar personagens famosos, essa é uma das formas mais acessíveis de entrar na conversa do Dia das Crianças 2026 sem depender de grandes campanhas de mídia.
A terceira é o parcelamento e o preço de entrada. Com juros altos, quem consegue oferecer parcelas sem juros ou kits de presente com valores menores tende a ganhar a escolha de quem está com o orçamento apertado.
O que o Dia das Crianças 2026 ensina para quem vende
Para empresas de qualquer porte, a data deixa lições que valem para o resto do ano, inclusive para a Black Friday e o Natal. A primeira: preço sozinho não sustenta mais a venda. Se o produto ficou mais caro, a marca precisa entregar um motivo claro para o consumidor pagar, seja exclusividade, experiência ou conveniência.
A segunda: o consumidor está trocando o presente grande pelo presente possível. Ter opções de entrada no portfólio, em vez de apostar só no item premium, ajuda a não perder a venda. E a terceira: quem planeja o fim de ano precisa considerar um cliente endividado e seletivo, que compara mais e decide mais devagar.
O balanço final do Dia das Crianças 2026 só sai nos próximos dias, mas o recado já está dado: a data segue relevante para o varejo, só que o crescimento vai depender cada vez mais da inteligência das marcas, e cada vez menos do volume.
Executivo de marketing e conteúdo digital com mais de 18 anos de experiência em marcas como Terra, iG, TecToy e Banco Digio, indústrias e agências de comunicação. Fundador da Vector Marketing, agência especializada em portais, sites e conteúdo, e atualmente editor do Vector News.
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