O Ibovespa recorde desta sexta-feira (9) fechou uma semana histórica na B3. O principal índice da bolsa brasileira subiu 1,38% e terminou o dia aos 209.066,90 pontos, o maior fechamento da sua história, com alta acumulada de 8,82% na semana. No câmbio, o dólar à vista caiu 0,79% e encerrou cotado a R$ 4,985, abaixo da barreira dos R$ 5.
O Ibovespa recorde veio da leitura do mercado sobre o segundo turno das eleições presidenciais, marcado para 25 de outubro, e se manteve mesmo com a inflação de setembro acima do esperado. Para quem comanda uma empresa, o rali vai muito além do home broker: ele mexe com juros futuros, com o custo do crédito e com o caixa de quem importa ou exporta.

O que levou ao Ibovespa recorde
O avanço semanal foi o terceiro maior desde janeiro de 2020, segundo levantamento da Elos Ayta citado pela Exame. Só ficou atrás de duas semanas de março e abril daquele ano, no meio da turbulência da pandemia. Na sexta, o índice chegou a tocar 209.713 pontos, nova máxima intradiária, e movimentou R$ 39,4 bilhões.
Há um dado que torna o Ibovespa recorde ainda mais simbólico. Corrigido pela inflação, o Ibovespa também superou o seu recorde real, que vinha de 20 de maio de 2008 e equivale hoje a cerca de 202.913 pontos. O índice passou essa marca em 5 de outubro e fechou a semana 3,03% acima dela. Ou seja: pela primeira vez em mais de 18 anos, a bolsa está mais cara do que no auge do ciclo das commodities, mesmo descontando a inflação.
O motor principal foram as pesquisas para o segundo turno. Na sexta, o levantamento AtlasIntel/Bloomberg mostrou Flávio Bolsonaro (PL) com 52,8% dos votos válidos, contra 47,2% de Lula (PT). Na quinta, o Datafolha havia apontado 52% a 48% para Flávio. Já a pesquisa Vox, também divulgada na sexta, trouxe um cenário diferente, com Lula à frente por 44,2% a 42,7%. Segundo analistas ouvidos pela Exame, o mercado tem dado menos peso a levantamentos isolados e olhado mais para a composição política que pode se formar depois da eleição. Para entender as diferenças entre os institutos, veja nossa análise sobre as pesquisas do segundo turno.
Dólar abaixo de R$ 5: quem ganha e quem perde
Junto com o Ibovespa recorde, o dólar acumulou queda de 4,43% na semana frente ao real, segundo a Forbes Brasil, que aponta recuo de 9,17% da moeda americana no acumulado de 2026. O apetite de investidores estrangeiros por ativos brasileiros e a queda dos juros dos títulos americanos ajudaram a puxar o movimento.
Para empresas que importam insumos, máquinas ou tecnologia, ou que têm dívida em dólar, o câmbio mais baixo é alívio direto no caixa. Do outro lado estão os exportadores. A Vale, por exemplo, não acompanhou o rali na mesma intensidade: com receita majoritariamente em dólar, a empresa sofre com o real mais forte e ainda enfrenta pressão no minério de ferro, com a demanda mais fraca por aço na China.
Juros em queda abrem espaço para varejo e construção
No Ibovespa recorde da semana, as ações mais sensíveis aos juros e à economia doméstica foram as estrelas. Na sexta, a MRV liderou as altas do índice com valorização de 21,62%, depois de sinalizar forte geração de caixa no terceiro trimestre. Magazine Luiza subiu mais de 19%, Lojas Renner avançou 11,56%, Cury ganhou 9,66% e Cogna, 8,53%.
A lógica é simples: se o mercado aposta em juros menores à frente, quem depende de crédito para vender (imóveis, eletrodomésticos, roupas, educação) ganha fôlego. O setor de construção, aliás, já vinha embalado, como mostramos ao explicar por que as construtoras dispararam na B3.
Na ponta negativa, as teles foram as que mais caíram. Telefônica Brasil (Vivo) recuou 5,25% e TIM perdeu 4,18%, pressionadas pelo anúncio de que a SpaceX, de Elon Musk, fechou acordo para comprar frequências de 800 MHz nos Estados Unidos. O mercado leu o movimento como um passo da Starlink rumo à telefonia móvel, o que acende o alerta para as operadoras tradicionais.
E a inflação acima do esperado?
O Ibovespa recorde aconteceu no mesmo dia em que o IBGE divulgou o IPCA de setembro, com alta de 0,82%, acima da projeção de 0,73% do mercado. Em 12 meses, a inflação chegou a 4,58%, acima do teto da meta, de 4,5%. Explicamos o que pesou no índice na matéria sobre o IPCA de setembro que furou o teto da meta. A surpresa tirou parte do fôlego da bolsa pela manhã, mas o otimismo voltou a prevalecer ao longo da sessão, com os juros futuros em queda.
O que o Ibovespa recorde muda para a sua empresa
Mesmo para quem não tem ações, o Ibovespa recorde manda recados importantes. O primeiro é sobre crédito: juros futuros em queda tendem a baratear, com algum atraso, as linhas prefixadas e as emissões de dívida das empresas. Quem está planejando captar recursos ou renegociar contratos para 2027 deve acompanhar essa curva de perto.
O segundo é sobre câmbio. Um dólar abaixo de R$ 5 pode ser uma janela para antecipar importações ou rever a proteção cambial. Mas vale lembrar que boa parte desse movimento depende de expectativa eleitoral, e expectativa muda rápido. Até o dia 25, e principalmente depois dele, a volatilidade deve continuar alta.
O terceiro é sobre o humor do consumidor e do investidor. Setores que vinham sofrendo com a Selic alta, como varejo e construção, voltaram ao radar. Para quem vende para esses mercados, pode ser hora de preparar a operação para uma retomada, sem perder de vista que inflação acima da meta ainda limita o espaço para cortes rápidos de juros. No fim, o Ibovespa recorde é um termômetro de expectativa, não uma garantia.
Executivo de marketing e conteúdo digital com mais de 18 anos de experiência em marcas como Terra, iG, TecToy e Banco Digio, indústrias e agências de comunicação. Fundador da Vector Marketing, agência especializada em portais, sites e conteúdo, e atualmente editor do Vector News.
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