O fim das bets tirou de uma vez o patrocinador máster de 14 dos 20 clubes da Série A. Para as marcas, é a maior janela de exposição no futebol em anos. Para os clubes, uma lição cara sobre depender de um único setor.
Atualizado em 9 de outubro de 2026
O fim das bets deixou o futebol brasileiro com um problema que cabe no peito da camisa. A Medida Provisória 1.394, de 25 de setembro, proibiu em todo o país a exploração, a oferta, a intermediação e a publicidade das apostas de quota fixa, e o efeito foi imediato. Os apostadores tiveram até 5 de outubro para sacar voluntariamente, e desde o dia 6 sites e aplicativos precisaram sair do ar.
Nas arquibancadas, a mudança aparece no uniforme. Segundo o Migalhas, as marcas de apostas precisam deixar camisas, estádios e transmissões das Séries A e B, mesmo nos contratos que ainda tinham anos de vigência.
O tamanho do buraco deixado pelo fim das bets
Os números explicam por que o mercado chama o momento de terremoto. De acordo com levantamento citado pela Revista Empreende, com base nos balanços de 2025, as bets eram patrocinadoras máster de 14 dos 20 clubes da Série A e somavam R$ 1,14 bilhão em aportes, o equivalente a 7,9% do faturamento conjunto da elite, de R$ 14,9 bilhões.
Olhando só para a receita comercial, o peso é ainda maior. Sobre um faturamento comercial e de marketing estimado em R$ 3,069 bilhões, o dinheiro das apostas representava 33%, segundo a consultoria Convocados, em dados publicados pela CNN Brasil. Com o fim das bets, um em cada três reais que as marcas colocavam nos clubes simplesmente desapareceu.
A Série B também sente. Lá, 13 dos 20 clubes tinham vínculos comerciais com empresas de apostas, e 11 delas ocupavam o patrocínio principal, segundo A Tarde.
O caso mais emblemático é o do Flamengo, dono do maior contrato do país, que chegava a R$ 268,5 milhões por ano. O presidente do clube, Bap, estima uma perda de R$ 430 milhões para o Flamengo e de R$ 2,5 bilhões para o futebol brasileiro como um todo.
Quem já correu para tapar o espaço
Os primeiros movimentos mostram duas saídas bem diferentes.
A solução de transição. O São Paulo fechou com o Superscore, um aplicativo gratuito de estatísticas de futebol, parceiro global da Superbet, que não exibe odds nem publicidade de apostas, conforme a CNN Brasil. A própria empresa apresentou o acordo como uma forma de preservar o investimento no futebol enquanto a MP é analisada pelo Congresso. É uma ponte, e não uma troca de setor.
O dinheiro público. Em Minas Gerais, a Cemig e a Codemig vão estampar as camisas de América, Atlético e Cruzeiro, em espaços ainda a definir, num pacote de R$ 32 milhões noticiado por O Tempo. A decisão não passou sem polêmica: clubes mineiros menores publicaram um manifesto contra o patrocínio estatal às SAFs da capital.

O que o fim das bets muda para as marcas
Para quem anuncia, o cenário virou de ponta-cabeça. Antes do fim das bets, as casas de apostas dominavam a disputa pelo espaço mais valioso do futebol e inflacionavam os preços. Agora são os clubes que precisam de caixa com urgência, e isso muda o poder de barganha na mesa.
Três leituras importam para qualquer diretor de marketing:
1. A janela é rara. Espaço máster em clube de massa quase nunca fica disponível ao mesmo tempo em tantos times. Setores com ambição nacional, como bancos digitais, varejo online, telecom e aplicativos de serviço, ganham uma oportunidade que não existia há um mês.
2. Outras categorias já estavam chegando. O futebol feminino dá uma pista do que vem por aí. Na final do Brasileirão Feminino, a Amazon levou influenciadores ao entorno do MorumBIS para interagir com torcedores e oferecer upgrade para camarotes. É ativação de marca, e não só logotipo no peito, o tipo de patrocínio que tende a ganhar espaço. Contamos essa história em futebol feminino vira negócio.
3. O risco regulatório continua na mesa. Uma medida provisória precisa ser votada pelo Congresso para virar lei definitiva. Quem fechar contrato agora deve prever cláusulas para os dois cenários: o fim das bets confirmado ou uma eventual volta das apostas.
A lição que vale para qualquer empresa
Por trás dos números, o fim das bets expôs um problema clássico de gestão: concentração de receita. Quando um único setor responde por um terço do faturamento comercial, uma canetada é suficiente para desorganizar o caixa de um campeonato inteiro.
Vale para clubes e vale para qualquer negócio que depende de poucos clientes, de um único canal de vendas ou de uma só plataforma de mídia. Diversificar parece caro até o dia em que a fonte principal some. Num ano em que a inflação acima de 5% já pressiona o caixa das empresas, a conta fica ainda mais pesada. Acompanhe os próximos capítulos na editoria de Economia.
Próximos passos do fim das bets
O calendário da transição segue apertado. Entre 9 e 14 de outubro, os bancos devem devolver aos apostadores os valores informados pelas empresas, e a partir do dia 14 a Caixa passa a intermediar os casos em que a devolução não for possível. No campo, a corrida é outra: fechar novos contratos antes que a temporada de 2027 comece a ser planejada.
Fontes: Migalhas, CNN Brasil, Revista Empreende, A Tarde, O Tempo, Máquina do Esporte.
Executivo de marketing e conteúdo digital com mais de 18 anos de experiência em marcas como Terra, iG, TecToy e Banco Digio, indústrias e agências de comunicação. Fundador da Vector Marketing, agência especializada em portais, sites e conteúdo, e atualmente editor do Vector News.
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