A Philips Walita encontrou uma prova rara de que uma marca virou parte da cultura brasileira: gente com o nome dela na certidão de nascimento. Cruzando dados do IBGE, a empresa descobriu 74 brasileiras e brasileiros registrados como “Walita” e transformou essas histórias na campanha “Walitas do Brasil”, criada pela agência iD\TBWA, como noticiou o Propmark.
A ação é pequena em verba se comparada às grandes campanhas de TV, mas grande em significado. Ela mostra como uma marca com mais de oito décadas no país pode usar dados públicos, memória afetiva e pessoas reais para dizer algo que nenhum slogan conseguiria: “a gente faz parte da sua família”.
Como a Philips Walita chegou às 74 Walitas
A ideia nasceu de uma curiosidade. Se uma marca é tão presente na casa das pessoas, será que alguém já deu esse nome a um filho? A agência levou a pergunta ao ranking de nomes do IBGE e encontrou a resposta: 74 registros. Na descrição da própria criação, a pergunta virou busca no IBGE, a busca virou pesquisa de casting e o casting virou campanha.
Entre as protagonistas está Walita Arruda, nascida em Tucumã, no Pará, segundo o Marcas pelo Mundo. A campanha reúne três mulheres com histórias diferentes ligadas ao nome e à presença dos produtos da marca na família. O conteúdo foi publicado nos perfis oficiais da Philips Walita, com um filme principal e vídeos individuais para cada personagem.

Por que a campanha da Philips Walita funciona
À primeira vista, é uma história simpática. Olhando com lente de negócio, a campanha acerta em pelo menos quatro pontos que valem para qualquer empresa.
1. Dado público como matéria-prima criativa
O ponto de partida não foi uma pesquisa cara nem um insight de laboratório. Foi uma base pública e gratuita. O IBGE, as estatísticas de busca e os dados abertos estão cheios de curiosidades que podem virar histórias. A diferença está em fazer a pergunta certa.
2. Prova em vez de promessa
Qualquer marca pode dizer que está presente na vida das pessoas. Poucas conseguem provar. Ao mostrar pessoas reais que carregam o nome da marca, a Philips Walita troca o discurso por evidência, e evidência convence mais que adjetivo.
3. Memória afetiva com estética atual
A marca vem trabalhando a relação entre gerações há algum tempo. Em campanhas anteriores, como “Encontro de Gerações”, colocou avós e netos cozinhando juntos, unindo aparelhos clássicos e lançamentos, segundo o Propmark. “Walitas do Brasil” leva essa linha adiante: nostalgia, mas contada em formato de redes sociais, com vídeos curtos e personagens reais.
4. Pessoas reais no lugar de celebridades
Em vez de contratar um rosto famoso, a marca deu protagonismo a mulheres comuns. Isso gera identificação, rende conversa espontânea e custa menos do que um contrato com uma estrela.
A Philips Walita e o peso da marca na decisão de compra
A campanha chega num momento em que a marca voltou a importar para o consumidor. O estudo mais recente da Interbrand mostrou que o papel da marca na decisão de compra subiu para 35% em 2026, a primeira alta em mais de dez anos, como mostramos na reportagem sobre o papel da marca.
Eletroportáteis são uma categoria em que essa disputa é especialmente dura. Liquidificadores, batedeiras e ferros de passar são comparados lado a lado em marketplaces, muitas vezes só por preço e avaliação. Nesse cenário, ser lembrada como “a marca da família” é uma vantagem que não aparece na ficha técnica, mas pesa na hora do clique.
Não por acaso, a gerente de marketing da Philips Walita no Brasil, Mayra Vergani, resumiu o espírito da ação dizendo que descobrir pessoas com o nome Walita revela o quanto uma marca pode se tornar parte da cultura e das histórias de um país.
O que outras empresas podem aprender com a Philips Walita
Nem toda empresa tem 80 anos de história, mas o raciocínio por trás de “Walitas do Brasil” serve para negócios de qualquer tamanho:
- Procure provas da sua relevância: clientes antigos, histórias de uso, recordes, curiosidades. Elas valem mais do que qualquer frase de efeito.
- Use dados abertos: IBGE, Google Trends e pesquisas setoriais podem render pautas e campanhas inteiras.
- Dê voz aos clientes: uma história real contada pelo próprio consumidor gera confiança e engajamento.
- Pense em série, não em peça única: um filme principal desdobrado em vídeos individuais rende semanas de conteúdo nas redes.
Esse último ponto conversa com uma tendência que acompanhamos de perto no Vector News: marcas que funcionam como produtoras de conteúdo, e não apenas anunciantes. Quem constrói histórias próprias depende menos da mídia comprada, como discutimos em posicionamento de empresa e em conteúdo em vídeo para empresas.
Também vale observar o custo. Uma campanha construída com pessoas reais, dados públicos e distribuição nas redes da própria marca exige muito menos investimento do que uma grande produção com celebridade e mídia de TV. Para empresas médias, que não têm verba para competir em volume, a criatividade baseada em dados e histórias é o caminho mais eficiente para aparecer.
A trajetória da Philips Walita no Brasil
A Philips Walita está nos lares brasileiros há mais de 85 anos e construiu sua imagem em torno da cozinha, com liquidificadores, batedeiras, cafeteiras e, mais recentemente, fritadeiras sem óleo. Hoje a marca faz parte da Versuni, empresa que reúne os eletroportáteis que antes pertenciam à divisão doméstica da Philips.
Nos últimos anos, a comunicação da marca alternou dois caminhos. De um lado, campanhas focadas em desempenho e tecnologia, como “A evolução do seu dia a dia”, que colocou os produtos como protagonistas de cinema, segundo o ABC da Comunicação. De outro, ações de memória afetiva, que lembram ao consumidor por que ele confia na marca. “Walitas do Brasil” pertence ao segundo grupo, e talvez seja o exemplo mais forte dele, porque a prova não vem da empresa, vem das pessoas.
Uma marca que virou nome
Poucas empresas chegam ao ponto de virar substantivo ou nome próprio. No Brasil, o fenômeno é conhecido em categorias como lâmina de barbear, palha de aço e esponja, em que o nome da marca passou a designar o produto. A Philips Walita mostra um passo além: virar nome de gente. É o tipo de ativo que não se compra com mídia e que, bem contado, se transforma em vantagem competitiva por décadas.
A lição final é simples. Toda marca tem histórias guardadas na vida dos seus clientes. O trabalho do marketing é ir atrás delas, comprovar e contar bem.
Acompanhe a editoria de Cases no Vector News e os vídeos explicativos no Vector News Play.
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